24 de março de 2017

[Série] 3%


3%
 
Quando a Netflix anunciou a produção de 3%, a primeira série original brasileira do serviço de streaming, eu e o Brasil ficamos empolgados. Na premissa, uma sociedade futurista distópica, na qual o planeta está devastado, com falta de água, comida, energia. Ao completar 20 anos de idade, todo cidadão tem direito de participar do Processo, uma seleção tensa, estressante e até mortal, porém a única chance de chegar a Maralto, o lugar onde vive a elite da humanidade e tudo é abundante e digno e que, por isso mesmo, é composta daqueles que são merecedores da honra de morar em uma sociedade ideal; ou seja, os chamados3% dos candidatos que conseguem ser aprovados no tal processo.
 
Tal premissa já adiantava que não se veria nada de novo, mas era lógico que eu iria assistir. A maior novidade já era uma produção original nossa em pleno catálogo da Netflix.
 
O cenário escolhido foi o Brasil, o que faz completo sentido; contudo os produtores decidiram não especificar em que local exatamente do país, embora a abertura indique um recorte do litoral do Pará e a entrada na plataforma onde ocorre a seleção lembre a entrada do Planalto. Como reforço dessa ideia, estão os participantes e os idealizadores do tal Processo, que apresentam diversidade de aparência e sotaque. As principais interpretações ficam a cargo de Bianca Comparato (Michelle), Michel Gomes (Fernando), Vaneza Oliveira (Joana), Rodolfo Valente (Rafael), Rafael Lozano (Marco), João Miguel (Ezequiel) e Viviane Porto (Aline).
 
A ideia de 3% existe desde 2011, tendo sido concebida por alunos da ECA-USP e lançada como uma websérie bem sucedida de três episódios, que funcionou como uma espécie de vitrine na busca por investidores; aliás, um belo exemplo de vitrine. Só que desde a ideia no papel até chegar à Netflix, várias coisas aconteceram.
cenário militar e cinza da versão da web deu lugar a mais cores e a um cenário mais limpo e tecnológico (os cubos de papel viraram cubos “mágicos”) e o elenco atual foi uma substituição à quase totalidade branca nos dois lados da sociedade, que é requisito mínimo para quem se propõe a discutir qualquer desigualdade. Outras coisas que aconteceram foram Jogos Vorazes(2012), Elysium (2013), Divergente (2014) e Maze Runner (2014). Como tudo isso já virou referência, fica impossível não comparar e, infelizmente, achar que são melhores. Assim como todo filme sobre zumbis agora passa pelo crivo de TWD, histórias apocalípticas passarão pelo crivo do que veio antes, mesmo que a origem remonte a 1984 (1949), o inventor do Big Brother, que na verdade se baseia em Nós (1923), que se inspiraram em A Nova Utopia (1891).


Tudo isso já aconteceu antes, por aqui, por exemplo, com a peça Confissões de Mulheres de 30, que veio muito antes de Sex and the CityMax e os Felinos que veio antes e foi plagiado por A vida de Pi e, Jorge Benjor que provou na justiça que foi plagiado por Rod Stewart. E dizer que faz parte ou que ainda faz parte, só demonstra o quanto a produção artística ainda tropeça neste país; principalmente a audiovisual.
Embora seja meio óbvia a diferença de orçamento, a questão não se resume a isso. Além de toda a dificuldade de captação de recursos, seja via editais (já mal vistos de tantos casos de corrupção) ou via crowdfunding (que ninguém aguenta mais ver e cuja economia do país não ajuda o povo a ter dinheiro para investir), existem muitas produções cujos criadores originais abrem concessões para estar dentro da grade de uma grande corporação. Ok, é uma escolha, faz parte de um caminho, quer se concorde com ele ou não. E veja que não estou criticando esta escolha, apenas chamando a atenção para o viés que se gerou, o de enquadrar as produções em fórmulas e formatos ditos mais “consumíveis” pelo público. Isso acontece com produções alemãs, palestinas, canadenses e brasileiras.
Nós nos especializamos em novelas e hoje as séries fazem o que as novelas fazem há muito tempo, como o corte no clímax da história e a espera do próximo episódio. Então hoje que estamos fazendo séries, até por uma questão de lei, temos referências estranhas por um mundo dominado por uma espécie de cartilha das series americanas. Estamos descobrindo como fazer produções que gerem a identificação necessária e, ainda assim, sejam um ativo daqui. Sim, a Globo produziu séries que deram muito certo, que já faziam o que as séries americanas fazem hoje, mas foi numa época em que ninguém nem sonhava com TV à cabo, quanto mais streaming e, Baywatch era repassada por ela logo após a Sessão da Tarde. Desse modo percebemos que contextos e culturas podem levar a um grau de sofrimento na prática, no resultado.
Ainda assim, existem pontos falhos na própria trama de 3%, que vão além desse cenário em que nossas produções vivem.Apesar de pitadas de Antigo TestamentoLostCall of Duty e de contar com a direção do experiente César Charlone, muitas questões ficam abertas, sem ganchos e parecem aleatórias, como o próprio título da série, o que talvez justifique o fato da história passar o tempo todo se explicando, desde a abertura. Também, a crítica constante à meritocracia é reducionista, não se sabe sobre as reais condições de vida das personagens, que só aparecem com flashbacks pontuais, ou o que justifica que no futuro você use calças de prega. Somem-se a isso diálogos e interpretações artificiais e estereotipados, que comprometem até mesmo nomes como Zezé Mota e Sérgio Mamberti. Mas há que se dizer que temos Elza Soares na trilha sonora!

Em contrapartida, 3% se tornou um sucesso mundial. Segundo a própria Netflix, lançada para mais de 190 países, é a série de língua não inglesa mais assistida nos Estados Unidos, além da Austrália, Canadá, França, Itália, Coreia do Sul e Turquia, o que levou a Netflix a classificá-la como parte do seleto grupo de produções nacionais que impactaram públicos globais. E o sucesso foi tanto que a série foi renovada para uma segunda temporada, anúncio este que foi feito pelo vice-presidente de marketing da empresa na América Latina, Vinny Lozato, durante o painel do serviço de streaming na Comic Con Experience (CCXP), em São Paulo.
Particularmente, torço para que 3% volte mais elaborada, mais destacada ainda para nós, que seja relevante culturalmente para o mundo e que isso tudo ajude a diminuir as esperas, a alavancar o mercado audiovisual brasileiro e o país para muito além de 3%, que não é um número nem próximo da realidade de hoje...




18 comentários:

  1. Olá
    Eu também fiquei mais do que empolgado com a produção da Netflix, e com o sucesso todo que foi só me enche de orgulho. Eu ia na não vi a série toda pro falta de tempo,,mas pretendo cocluir sem dúvidas. Também espero que nessa segunda temporada venha com um pouco mais de elaboração. Até mais ver
    Bjs

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    1. Oi, Manoel.
      Bom te ver por aqui.
      Vamos aguardar na torcida.
      Beijo grande!

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  2. Olá, tudo bem?
    Eu amo essa série, e fiquei muito orgulhosa pelo fato de ser BR ♥
    Amei o post, um beijo.

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    1. Oi, Rayanni!
      Obrigada pelo amor!
      As coisas aqui são tão surreais que as conquistas devem ser comemoradas em vários sentidos. Na torcida para abrir caminho para todos nós que ousamos sonhar grande!
      Depois me conta quando chegar a próxima temporada.
      Beijo grande!

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  3. Ola!

    Eu fico orgulhosa em saber que a primeira produção brasileira do streaming é a mais assistida lá fora (na parte de internacional). Claro que tem muito o que melhorar mas é bem boa.
    O que eu não curto é a comparação excessiva. A proposta é a mesma da original criada pelos estudantes, infelizmente o apoio demorou muito... Por isso a galera compara com jogos vorazes ou sei lá o que.
    Enfim, para mim é uma excelente serie e que com certeza virá com força total na segunda temporada.

    Beijinhos

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    1. Oi, Ana!
      Pois, é. Incentivo no audiovisual é uma batalha. Acho que incentivo na cultura. Também tem o caso do livro O Clube dos Imortais, que veio antes de Anjos da Noite, mas que quando finalmente saiu aqui, o filme já havia acontecido.
      Torço pela segunda temporada com força total, sim, mas torço também para que as coisas mudem para melhor por aqui...
      Beijo grande!

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  4. Olá!
    Ainda não tinha visto nada ou lido sobre a série e fiquei contente ao saber da popularidade dela. Que bom que o sucesso foi tanto que a levou a ficar no seleto grupo de produções nacionais. Vou assistir para ver se vou gostar!!
    Beijo.

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    1. Oi, Cidália.
      Legal, né? A gente comemora junto.
      Depois me conta o que achou.
      Beijo grande!

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  5. Oii Chris, tudo bem? Adorei seu post e saber tua opinião sobre essa série, que foi tão criticada por aqui assim que foi lançada. Eu não assisti ainda, nem tenho muita vontade, mas pretendo fazê-lo antes de sair a segunda temporada. Adorei saber que está fazendo um sucesso tão grande lá fora!
    Beijos

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    1. Oi, Gabrielly!
      É sempre bom ganhar essa visibilidade. Alguém sempre tem que abrir caminho. Na torcida pra segunda temporada vir arrebentando!
      Depois me conta se assistiu e o que achou.
      Beijo grande!

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  6. Essa é uma das séries que mais quero assistir, pois não tive a chance nem de dar uma espiadinha, saushuah. No entanto, já vi váriaaas resenhas sobre ele e pelo que vejo, eles foram bem, mas precisam melhorar. Portanto, torço para que eles retornem melhorando toda e qualquer falha que tenha ficado. Pois se forem capaz disso, tenho certeza que essa coisa de que criações brasileiras não prestam, pode mudar.

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    1. Oi, Aline!
      É difícil que qualquer produção seja uma unanimidade. Existem diversas produções boas que o público desconhece, porque alguma outra virou moda. Eu gosto de fuçar tudo, mesmo. Também torço pela melhoria desta série. Sobre as produções brasileiras, elas prestam elas são boas, mas nem todas são unanimidades. E também existe um contexto histórico e político no nosso país que influenciou e influencia as produções. O importante é que nunca deixamos de acreditar =D
      Beijo grande e depois me conta o que achou da série.

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  7. Olá,

    Vejo muitos comentários positivos sobre a série, mas, confesso que essa premissa não conseguiu me atrair. Acredito que se eu assistir, possa ser que eu goste, porém no momento estou assistido muitas séries ao mesmo tempo e pretendo terminar umas 3 antes de começar séries novas.

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    1. Oi, Thay!
      São mesmo muitas séries. Eu as vezes fico meio "vesga" e acabo dando um tempo. Esse trem vicia, hahaha. Mas depois me conta se assistiu e o que achou.
      Beijo grande!

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  8. Os comentários sobre essa série são tão bons! Mas eu não acompanho séries então e apesar de ser uma ótima dica, vou passá-la.

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    1. Oi, Mariana.
      Eu sempre acompanhei séries, embora agora seja de um jeito novo.
      De fato, ninguém é obrigado a nada (ou a muito pouca coisa), mas as produções de hoje têm sido bem legais, rivalizando com cinema.
      Se um dia se aventurar, volta pra contar.
      BEijo grande =)

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  9. Olá,
    Lembro na época que estreou que foi um grande alvoroço e todo mundo comentando sobre ela.
    Confesso que não sou muito de acompanhar séries, mais essa conseguiu me deixar intrigada por conta dos temas abordados e por ser uma série nacional bem distinta do que costumamos ver.
    Fico feliz em saber algumas curiosidades e me impressiona saber que é a mais assistida de língua não inglesa entre tantos países.

    LEITURA DESCONTROLADA

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    1. Oi, Michele!
      Alvoroço sempre é marketing, mesmo o ruim, como foi no começo a história do casting.
      Bacana saber que você dá esse apoio à série! É importante, mesmo, que criemos uma cultura de nos vermos; e isso também acontece quando pessoas como você dão voz a esta ideia. #tamojunto
      Beijo grande!

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