17 de fevereiro de 2017

[ Séries] A HORA E A VEZ DOS NARCOTRAFICANTES

O advento da internet tornou o mundo, em tese, menor; as fronteiras se estreitaram. 
Sem entrar em questões políticas que, na verdade, também influenciam e, em certa medida, contra-argumentam tudo isso, ao longo da vida, os talentos sempre se sobressaíram. Por isso temos Pelé a largo alcance e Iñarritu ganhando dois Oscars seguidos. Assim que temos uma profusão de filmes e séries feitos por latinos ou sobre latinos. Seja como for, eu me sinto a própria Leci Brandão quando assisto a estas produções. Pausa para aquele seu momento “oi?”... Guarde a ideia.
O tema “latino-americano” que parece nunca sair de moda, é o narcotráfico e, com ele, seu nome mais famoso, Pablo Escobar; é por isso que é possível encontrar mais de uma série sobre ele ou que esbarre nele de alguma forma. Uma dessas séries se chama Pablo Escobar, el Patrón del Mal, estrelada pelo excelente ator Andrés Parra. A produção parte dos momentos finais do narcotraficante e do Cartel de Medellín. Embora a série tenha cenas de explosão sofríveis, ela tem momentos hilários, como por exemplo, ao mostrar uma briga entre Pablo e Tata, sua mulher, no meio de uma fuga. Enquanto os capangas correm para desmontar as coisas, Escobar espera calmamente pelas pilhas que pediu para colocar no seu radinho e tenta apaziguar a esposa que reclama que “você nunca me escuta”.  É uma produção que mostra, nas entrelinhas, por que muitas pessoas podem ser seduzidas por aquilo que, na teoria, elas sabem que não é certo.

Já o Pablo Escobar de Narcos é o grande destaque para nosotros. A despeito dos críticos do sotaque de Wagner Moura, dos fatos que também não batem com a série, Narcos causa estranheza a primeira vista, principalmente se você estiver acompanhando outras produções que falam do narcotraficante. Além da convivência com pelo menos três nacionalidades diferentes, a direção dessa série é mais pesada e cheia daquela voice over, tão características de Padilha. Outro ponto que promete ser interessante, é que a história continuará contando a trajetória do Cartel de Cali, que é uma parte que não se vê por aí. Mas acima de tudo, é sempre um orgulho ver um brasileiro “chegado lá”.  
Ainda falando em brasileiros, temos a série A Rainha do Sul, em que Alice Braga interpreta uma traficante mexicana. Esta mesma história gerou outra série anterior chamada A Rainha do Tráfico, estrelada pela atriz Kate del Castillo, que fala, entre outras coisas, sobre o Cartel de Sinaloa; porém se Narcos segue a trajetória da cocaína, A Rainha do Tráfico (tanto quanto A Rainha do Sul) segue a história da protagonista, Teresa Mendoza. Aqui o interessante é o contraponto feminino, uma personagem forte, que para sobreviver no mundo dos homens tem que aniquilar seja quem for; mas também a riqueza de sotaques e gírias oriundos das diversas nacionalidades que participam da série.










Kate del Castillo (linda como sempre e usando salto alto como quem usa um tijolo em cada pé) também estreou outra série no mesmo tema, chamada Dueños del Paraíso, dessa vez com cenário em Miami, no auge das drogas e dos crimes (panorama que serviu paraScarface e Miami Vice). Apesar de pecar na continuidade e no excesso de barriga, o destaque da série, que também conta com vários sotaques, é a Direção de Arte e os atores Tony Dalton, que interpreta o sexy e low profile Renato e, Adriana Barraza, que fazem um contraponto ao barulho e exagero da década.
Em El Señor de los Cielos, Andrés Parra volta a atuar como Pablo Escobar nos primeiros capítulos da série. Nesta história, sua morte abre caminho para que os traficantes mexicanos entrem em disputa. A série se inspira nos fatos sobre o Cartel de Juarez e de seu principal líder, aqui chamado de Aurelio Casillas, interpretado pelo ator Rafael Amaya. Esta produção é marcada por homens com excelentes peitorais, cabelos alisados, roteiros, brigas, explosões e continuidades furadas e a ratificação do estereótipo do machão. Se você curte novelas mexicanas, isso não é nenhuma novidade. E veja que isso não é uma crítica negativa. Este é o jeito deles fazerem as coisas, contarem suas histórias, mesmo doloridas, de demonstrarem orgulho por sua terra. A primeira vista pode parecer caricato, muito mais ligado a um preconceito e revolta via SBT; mas tudo isso dá identidade à produção, além do fato de que você se diverte quando assiste (o cinema americano é bastante caricato, principalmente no estilo um homem contra o mundo/todos/sistema, só que estamos bem mais acostumados. As novelas turcas têm seu jeitão também; quem sabe um dia falo sobre elas).
Nesse mundo de possibilidades, existem ainda outros tantos títulos como Rosário TijerasEl CapoLa NiñaEl Cartel de los Sapos,Camelia la Texana, Los Jefes, Senhorita PólvoraA Viúva Negra, Señora Acero e um Joaquín “El Chapo” Guzmán: el Varón de la Droga, porvir. Divirtam-se.
Agora voltemos à Leci Brandão...
Sambista conhecida, Leci costumava comentar o desfile de Carnaval da Rede Globo, sempre relacionando as pessoas. Então a porta-bandeira da escola W era sobrinha do puxador de samba da escola X, que era pai da madrinha de bateria da escola Y, que era casada com o destaque da escola Z e, assim por diante.
Ao ver essas séries todas, me deparo com rostos conhecidos interpretando praticamente os mesmos papéis ou suas antíteses. Assim que Gato, estuprador e assassino em A Rainha do Tráfico é Trujillo, policial dedicado em El Señor de los Cielos, que persegue o bandido Aurelio Casillas, que foi Guero, namorado policial de Teresa no mesmo A Rainha do Tráfico.

O traficante Isidro Robles em El Señor de los Cielos é Nataniel Cardona, marido de Anastacia em Dueños del Paraíso. Ratas, assassino e sobrinho do dono de Sinaloa em A Rainha do Tráfico, é um babaca na novela Abismo de Paixão. Um dos irmãos Ochoa e um dos braços direitos de Escobar em El Patrón del Mal, viraram um guerrilheiro e o cunhado de Escobar, respectivamente, em Narcos. Vários matadores de Escobar em El Patrón del Mal, viraram outros matadores em Narcos e um dos sócios mortos por Escobar em Narcos, é o primo de Escobar em El Patrón del Mal e policial em A Rainha do Tráfico. E o russo mafioso elegantérrimo de A Rainha do Tráficovirou um policial mal ajambrado em Dueños del Paraíso.
Não se preocupem com esse zigue-zague; é só uma broma. Embora possamos levantar várias hipóteses para esta repetição, vale lembrar que por aqui, temos produções entupidas de Cauã Raymond e Cléo Pires. No fim, acho que a parte mais bacana e generosa disso tudo é o exercício de olhar para a história e a cultura de cada país, de nos respeitarmos e nos deixarmos enriquecer por estas mesmas histórias e por este mesmo respeito... 

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